(83) 9 9955-4827

FEMINICÍDIO em “EURÍDICE” de José Lins do Rego

  FEMINICÍDIO em “EURÍDICE” de José Lins do Rego   O Romance “Eurídice” do Escritor paraibano José Lins do Rego foi publicado em 1947. Passados 74 anos a obra continua tratando de temas atuais e que neste trabalho faremos uma análise voltada para o comportamento e a legislação nos aspectos sociológicos e jurídicos, principalmente quanto a violência contra a mulher, sem que se perca suas características temporais e literárias. Abordar a obra “Eurídice” na ótica do Direito é proporcionar ao leitor a riqueza da obra quanto aos seus aspectos jurídicos e sua atualidade temporal.   No autorretrato do “monstro”, como assim se define o próprio Júlio, encontraremos na formação da sua personalidade e que estão bem identificadas na primeira parte “Uma casa da Rua da Tijuca” situações do comportamento familiar e afetivo e, principalmente, a violência psicológica contra a criança que se consolidam em traumas e que estão expressas na narrativa de Júlio na violência contra Eurídice que se enquadra no FEMINICÍDIO. Esta abordagem mais psicológica e sociológica não é objeto do nosso trabalho e sim a base que permite entender a ocorrência do FEMINICÍDIO. Contudo, é a base para que possamos entender as últimas palavras e frases do romance: “…As minhas mãos largaram o pescoço quente de Eurídice. E ela estava estendida, como na minha cama. O corpo quase nu na terra fria.       E não senti mais nenhum cheiro de seu corpo.” (XLVI)   Júlio confessa em sua narrativa ser um indivíduo frio e sem remorso ao dizer: “…, nesta cela úmida, fora de um convívio que me faça fugir de mim mesmo, de meus pensamentos e de minhas saudades”(I). Desta forma, já maior de 20 anos de idade, suas palavras são de plena consciência da sua prisão maior que é estar preso em si mesmo. A prisão e a liberdade são muito bem delineadas quando Júlio fala da liberdade dos pássaros: “Mesmo nas madrugadas de chuva e de vento, eles, mal a primeira claridade do dia rompe as névoas, cantam. Não terei a pretensão de me comparar aos pássaros, embora estes pássaros sejam bem broncos cantores, insípidos pardais sem voz e sem bonita plumagem, mesmo assim pássaros, que são sempre uma imagem da alada beleza das coisas vivas.”   A liberdade do homem não tem preço e só damos valor quando a perdemos. Tanto é que buscamos, quando presos, uma forma de expressar nossa liberdade. Júlio buscou através dos seus escritos a liberdade: “…, E como escrevo para me dar a sensação de que estou livre, tudo vou contar.”.   Os traumas que vão formar a personalidade de Júlio e que o leva ao FEMINICÍDIO começa quando ele afirma que “Filhos de velhos, me chamavam.”(II). Entendia ele esta situação como cruel e de uma situação de desgraça. Qual indivíduo se sente em sua formação com uma mente sã ao ouvir do seu pai que: “O Julinho veio ao mundo para mostrar aos meus credores que eu não era tão falido como eles julgavam.”. Quando ele reconhece que: “Nasci e me criei numa casa dominada pela presença de um fracasso.” não há dúvidas de que toda esta carga psicológica vai influenciar na sua vida adulta e reflexo dos seus atos do feminicídio. Ademais, destacamos que os relatos até agora apresentados de formação da personalidade SÃO DE REJEIÇÃO. Esta composição aparece bem nítida quando ele retrata a figura do pai e seu tratamento para consigo: “Para comigo era sêco, quase hostil;”. A compreensão da dimensão da REJEIÇÃO está quando ele relata: “O pai, que me tinha como estranho, para satisfazer as suas irreverências, e a mãe sêca, a me olhar e a me cuidar como uma obrigação, me deram sempre uma sensação de que contra mim era o mundo.” Este sentimento de REJEIÇÃO construído em toda a formação da personalidade de Júlio irá leva-lo ao FEMINICÍDIO. Ademais, essa construção se identifica, também, quando houve do próprio Médico que seu estado de saúde era devido ser filho de velhos, onde diz Dr. José Lopes: “ – Não é nada. Êste menino será assim sempre. É filho de velhos.” (III). Estava, portanto nesta época, com cerca de 10 anos quando foi para o referido médico e sentiu a REJEIÇÃO do carinho da mãe quando ouvia da sua Tia Catarina, chegada do interior de Minas, dizer que sua mãe o tratava como enteado e ter da própria mãe o argumento de  que: “-  Velha não pode ter essas gaiatices de mãe.”. Ora, o carinho de mãe não tem idade! Assim, diante da REJEIÇÃO ele diz: “… Compreendi que viera ao mundo para magoar,…”. Então eu trago para reflexão: Quem veio para magoar pode compreender a REJEIÇÃO DE UMA MULHER?   Um outro estudo ou linha para estudo da obra EURIDICE é a violência contra a criança e sua análise tendo como base o Estatuto da Criança e do Adolescente, onde percebemos a riqueza temática para um estudo social e jurídico. Neste trabalho faremos algumas pontuações e não o devido enquadramento do tema ou seu desenvolvimento.   A ausência materna, principalmente, leva-o a ser tratado pela irmã Isidora como um filho ao ponto de ser ela, também, combatida pela mãe como sendo o Júlio um impedimento para o casamento dela (IV). Surge por todo o tratamento de atenção e carinho uma atenção especial de Júlio, onde Isidora deixava o noivo para ir conversar com ele no quarto, ao pondo de usar uma expressão não convencional à época, disse Isidora: “-Nunca vi homem mais cacête.”.   A convivência de Júlio com gestos que feriam o caráter do indivíduo, naquela idade de formação do seu caráter, levava-o ao sentimento de uso e rejeição na convivência familiar e isto não só ocorria com seus sentimentos aos familiares diretos que fossem o pai, a mãe e as irmãs; esta compreensão do mal caráter já era, também vislumbrado por aquele que o “… ofendeu como uma afronta e uma iniquidade. O Dr. Luís Moura de Sá…” (V). Este seria, portanto, o noivo da sua irmã Isidora. O… Continue a ler FEMINICÍDIO em “EURÍDICE” de José Lins do Rego

FEMINICÍDIO em “EURÍDICE” de José Lins do Rego

  FEMINICÍDIO em “EURÍDICE” de José Lins do Rego   O Romance “Eurídice” do Escritor paraibano José Lins do Rego foi publicado em 1947. Passados 74 anos a obra continua tratando de temas atuais e que neste trabalho faremos uma análise voltada para o comportamento e a legislação nos aspectos sociológicos e jurídicos, principalmente quanto a violência contra a mulher, sem que se perca suas características temporais e literárias. Abordar a obra “Eurídice” na ótica do Direito é proporcionar ao leitor a riqueza da obra quanto aos seus aspectos jurídicos e sua atualidade temporal.   No autorretrato do “monstro”, como assim se define o próprio Júlio, encontraremos na formação da sua personalidade e que estão bem identificadas na primeira parte “Uma casa da Rua da Tijuca” situações do comportamento familiar e afetivo e, principalmente, a violência psicológica contra a criança que se consolidam em traumas e que estão expressas na narrativa de Júlio na violência contra Eurídice que se enquadra no FEMINICÍDIO. Esta abordagem mais psicológica e sociológica não é objeto do nosso trabalho e sim a base que permite entender a ocorrência do FEMINICÍDIO. Contudo, é a base para que possamos entender as últimas palavras e frases do romance: “…As minhas mãos largaram o pescoço quente de Eurídice. E ela estava estendida, como na minha cama. O corpo quase nu na terra fria.       E não senti mais nenhum cheiro de seu corpo.” (XLVI)   Júlio confessa em sua narrativa ser um indivíduo frio e sem remorso ao dizer: “…, nesta cela úmida, fora de um convívio que me faça fugir de mim mesmo, de meus pensamentos e de minhas saudades”(I). Desta forma, já maior de 20 anos de idade, suas palavras são de plena consciência da sua prisão maior que é estar preso em si mesmo. A prisão e a liberdade são muito bem delineadas quando Júlio fala da liberdade dos pássaros: “Mesmo nas madrugadas de chuva e de vento, eles, mal a primeira claridade do dia rompe as névoas, cantam. Não terei a pretensão de me comparar aos pássaros, embora estes pássaros sejam bem broncos cantores, insípidos pardais sem voz e sem bonita plumagem, mesmo assim pássaros, que são sempre uma imagem da alada beleza das coisas vivas.”   A liberdade do homem não tem preço e só damos valor quando a perdemos. Tanto é que buscamos, quando presos, uma forma de expressar nossa liberdade. Júlio buscou através dos seus escritos a liberdade: “…, E como escrevo para me dar a sensação de que estou livre, tudo vou contar.”.   Os traumas que vão formar a personalidade de Júlio e que o leva ao FEMINICÍDIO começa quando ele afirma que “Filhos de velhos, me chamavam.”(II). Entendia ele esta situação como cruel e de uma situação de desgraça. Qual indivíduo se sente em sua formação com uma mente sã ao ouvir do seu pai que: “O Julinho veio ao mundo para mostrar aos meus credores que eu não era tão falido como eles julgavam.”. Quando ele reconhece que: “Nasci e me criei numa casa dominada pela presença de um fracasso.” não há dúvidas de que toda esta carga psicológica vai influenciar na sua vida adulta e reflexo dos seus atos do feminicídio. Ademais, destacamos que os relatos até agora apresentados de formação da personalidade SÃO DE REJEIÇÃO. Esta composição aparece bem nítida quando ele retrata a figura do pai e seu tratamento para consigo: “Para comigo era sêco, quase hostil;”. A compreensão da dimensão da REJEIÇÃO está quando ele relata: “O pai, que me tinha como estranho, para satisfazer as suas irreverências, e a mãe sêca, a me olhar e a me cuidar como uma obrigação, me deram sempre uma sensação de que contra mim era o mundo.” Este sentimento de REJEIÇÃO construído em toda a formação da personalidade de Júlio irá leva-lo ao FEMINICÍDIO. Ademais, essa construção se identifica, também, quando houve do próprio Médico que seu estado de saúde era devido ser filho de velhos, onde diz Dr. José Lopes: “ – Não é nada. Êste menino será assim sempre. É filho de velhos.” (III). Estava, portanto nesta época, com cerca de 10 anos quando foi para o referido médico e sentiu a REJEIÇÃO do carinho da mãe quando ouvia da sua Tia Catarina, chegada do interior de Minas, dizer que sua mãe o tratava como enteado e ter da própria mãe o argumento de  que: “-  Velha não pode ter essas gaiatices de mãe.”. Ora, o carinho de mãe não tem idade! Assim, diante da REJEIÇÃO ele diz: “… Compreendi que viera ao mundo para magoar,…”. Então eu trago para reflexão: Quem veio para magoar pode compreender a REJEIÇÃO DE UMA MULHER?   Um outro estudo ou linha para estudo da obra EURIDICE é a violência contra a criança e sua análise tendo como base o Estatuto da Criança e do Adolescente, onde percebemos a riqueza temática para um estudo social e jurídico. Neste trabalho faremos algumas pontuações e não o devido enquadramento do tema ou seu desenvolvimento.   A ausência materna, principalmente, leva-o a ser tratado pela irmã Isidora como um filho ao ponto de ser ela, também, combatida pela mãe como sendo o Júlio um impedimento para o casamento dela (IV). Surge por todo o tratamento de atenção e carinho uma atenção especial de Júlio, onde Isidora deixava o noivo para ir conversar com ele no quarto, ao pondo de usar uma expressão não convencional à época, disse Isidora: “-Nunca vi homem mais cacête.”.   A convivência de Júlio com gestos que feriam o caráter do indivíduo, naquela idade de formação do seu caráter, levava-o ao sentimento de uso e rejeição na convivência familiar e isto não só ocorria com seus sentimentos aos familiares diretos que fossem o pai, a mãe e as irmãs; esta compreensão do mal caráter já era, também vislumbrado por aquele que o “… ofendeu como uma afronta e uma iniquidade. O Dr. Luís Moura de Sá…” (V). Este seria, portanto, o noivo da sua irmã Isidora. O… Continue a ler FEMINICÍDIO em “EURÍDICE” de José Lins do Rego